Parque tecnológico, uma febre passageira?
Fonte: Info-e ano VII N° 160 data: 29 de Novembro de 2007
A surpreendente
velocidade com que estão surgindo pelo país os chamados
parques tecnológicos – áreas que reúnem médias e grandes
empresas ligadas, inclusive geograficamente, a universidades
ou instituições de pesquisa – começa a preocupar os
especialistas envolvidos com inovação tecnológica.
Um levantamento
feito em conjunto pela Associação Nacional de Entidades
Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) e pela
Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI),
vinculada ao governo federal, mostrou que já existem no Brasil
pelo menos 55 iniciativas que se autodenominam parque
tecnológico, boa parte delas localizadas em cidades do
interior. No final da década passada, esses parques somavam
pouco mais de uma dezena.
O número inclui
os parques tecnológicos consolidados, os que se encontram em
fase de implantação e mesmo aqueles que ainda estão em
projeto. E já equivale a quase 15% da quantidade de
incubadoras de empresas existentes no país – cerca de 400.
Muito mais
simples e de aspirações mais modestas, as incubadoras podem
ser montadas em qualquer local e não mantêm, necessariamente,
vínculos com universidades. Além disso, a atividade-fim das
empresas nelas residentes não é obrigatoriamente voltada para
a pesquisa e o desenvolvimento, como é o caso daquelas
abrigadas nos parques.
"À primeira
vista, o número parece realmente um pouco alentado. Não sei se
há tantas cidades brasileiras capazes de abrigar um parque
tecnológico na acepção precisa do termo", afirma Guilherme Ary
Plonski, vice-presidente da Anprotec e que ocupou de 2001 a
2006 a superintendência do Instituto de Pesquisas Tecnológicas
(IPT) de São Paulo. "Temo que possa estar ocorrendo no país
uma certa banalização do conceito de inovação."
Plonski diz que
a Anprotec e a ABDI já iniciaram outro estudo, desta vez para
ver o que está, de fato, acontecendo no universo dos parques
tecnológicos. Os resultados do estudo irão gerar subsídios
para a modelagem de políticas públicas para o segmento.
O que há, hoje,
são apenas regras gerais. Embora os proponentes sejam
normalmente o poder público ou as universidades, os parques
tecnológicos constituem uma figura jurídica delineada por
acordos internacionais na área de pesquisa e desenvolvimento.
De qualquer forma, algumas dessas regras são bastante duras,
como aquela que exige, por exemplo, uma distância não superior
a 4 quilômetros entre a sede do parque e uma instituição de
pesquisa de renome internacional.
Inchaço
Diga-se que a
suspeita de que poderia estar ocorrendo uma espécie de
"inchaço" nessa modalidade avançada de produção industrial não
começou com o levantamento da Anprotec e da ABDI. O governador
mineiro, Aécio Neves, por exemplo, encontrou sobre sua mesa de
trabalho logo ao assumir o cargo, em janeiro deste ano, nada
menos do que 11 projetos de criação de parques tecnológicos em
Minas Gerais.
Assustado – caso
aprovasse todos eles, teria de mobilizar a máquina do governo
para apoiá-los, incluindo a área econômica –, Aécio convocou
alguns especialistas para certificar-se da viabilidade de cada
uma das iniciativas.
Resultado:
sobraram apenas três – os das cidades de Viçosa, Itajubá e
Belo Horizonte, que abrigam indústrias importantes nas áreas
de software para o agronegócio (a primeira) e metal-mecânica
(a segunda), além de contar com universidades federais e
instituições de pesquisa de qualidade reconhecida
internacionalmente.
"Alguns dos
projetos não tinham a menor consistência técnica e foram
apresentados obviamente por motivação política", critica Paulo
Tadeu Leite Arantes, diretor executivo do Centro Tecnológico
de Desenvolvimento Regional (Centev) da Universidade Federal
de Viçosa. "O conceito de parque tecnológico não deve ser
usado como uma panacéia, ou pode acabar perdendo todo o seu
conteúdo."
Arantes
reconhece, entretanto, que o empenho de diversas cidades em
abrigar um parque tecnológico é bastante compreensível. Nem
tanto, como se poderia supor, pelo eventual interesse dos
municípios em verbas subsidiadas – os parques recebem,
tradicionalmente, pouca ajuda do governo federal. O Programa
Nacional de Apoio às Incubadoras de Empresas e Parques
Tecnológicos (PNI) prevê o rateio entre as instituições do
país de uma verba de apenas R$ 360 milhões no período entre
2007 e 2010. Naturalmente, deverá sobrar muito pouco para cada
uma delas.
A razão é outra.
A verdade é que essa modalidade de desenvolvimento industrial,
de inspiração principalmente européia e asiática, vem se
mostrando bastante eficiente nas cidades onde os parques já
estão consolidados. Nada mais natural, portanto, que outros
municípios queiram também ter o seu.
A recente
promulgação da Lei do Bem e da Lei da Inovação, pelo governo
federal, que facilitaram o intercâmbio das empresas com os
institutos de pesquisa e o acesso aos recursos das agências de
fomento tecnológico, é outro fator de estímulo. E há ainda o
fato, nada desprezível, de os parques tecnológicos (neste
caso, do mesmo modo que as incubadoras) poderem ser montados
no âmbito dos mais diferentes setores da economia, desde que
tenham interface com a alta tecnologia. Poderiam, assim, pelo
menos em tese, ser criados a partir de uma pequena base
industrial preexistente, e nascer já minimamente
auto-sustentáveis.
Dentre os
parques mais bem-sucedidos, há desde aqueles voltados para a
informática, como os de Caxias do Sul (RS), do Recife (PE) e
de Campina Grande (PB), até os focados em produtos e serviços
de biotecnologia, como o de Lavras (MG), na agroindústria,
como o de Cascavel (PR), e em eletrônica e robótica, como o de
São Carlos (SP).
A distribuição
geográfica dos parques já consolidados também é bastante
capilarizada – outro incentivo para prefeituras e entidades de
ensino e pesquisa espalhadas pelo país –, embora os mais
importantes estejam nas regiões metropolitanas e nas
principais cidades do interior. O que faz sentido, haja vista
a notória concentração das boas universidades e institutos de
pesquisa brasileiros nesses locais.
Assim, dentre os
maiores parques, que abrigam várias dezenas de empresas – e
quase sempre ainda, agregada, uma pequena incubadora de base
tecnológica – estão o Parque Tecnológico de São Paulo/Centro
Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), que funciona na
Universidade de São Paulo (USP), o ParqTec, sintonizado com a
Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e com a USP-São
Carlos, o ParqCamp, da também paulista Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp), o Tecnopuc, da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre, e os
parques digitais do Recife e de Campina Grande.
Há grandes
parques também ligados a instituições respeitáveis do Rio de
Janeiro, Fortaleza, Florianópolis e no vale dos Sinos (RS).
Algumas ricas cidades do interior também têm parques de certo
porte e tecnologicamente prósperos, como Petrópolis (RJ),
Uberaba (MG) e Ribeirão Preto (SP), estas duas últimas fortes
no agronegócio.
Precondições
"Em todos esses
grandes parques há um traço comum: a preexistência de
universidades e institutos de pesquisa referenciais e de pelo
menos algumas indústrias com viés high-tech", observa Olívio
Ávila, diretor executivo da Associação Nacional de Pesquisa,
Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei).
"Os parques deram certo porque apresentavam as precondições
para isso."
Segundo ele,
para má sorte da maioria das cidades, além de as boas
instituições brasileiras de ensino e pesquisa estarem
concentradas em poucas áreas do país, só 2% a 3% das cerca de
90 mil empresas industriais que não estão abrigadas nos
parques ou em uma ou outra incubadora são de base tecnológica
– e, quando isso ocorre, trata-se quase sempre de
multinacionais ou grandes empresas de capital nacional. "A
verdade é que poucas indústrias do país teriam, hoje,
condições tecnológicas de participar de um empreendimento
desse tipo", lamenta. "Nunca houve muito investimento nessa
direção."
Essa pequena
base produtiva tecnológica explica, de acordo com Ávila, por
que o Brasil está situado em um medíocre 48º lugar no ranking
mundial da inovação, mas também o sucesso das empresas
participantes dos parques. Inovação dá dinheiro para quem faz
e, com pouca concorrência, mais ainda.
De fato, as
empresas que conseguiram abrigar-se em parques tecnológicos
não têm do que se queixar – assim como as próprias
instituições que as acolhem. Criado em 2001, em uma área
urbanisticamente recuperada da região portuária do Recife, o
Porto Digital, por exemplo, nasceu com 11 empresas, e hoje tem
86. Dentro dele, funcionam seis instituições de pesquisa e
fomento.
Grandes
exportadoras de sistemas de informática, as companhias
residentes no Porto Digital oferecem mais de 3 mil empregos
diretos, 80% dos quais de nível superior. A remuneração dos
trabalhadores é duas vezes e meia maior que a média registrada
na região metropolitana do Recife. E o parque já responde por
parcela importante da receita tributária da capital
pernambucana.
Na paraibana
Campina Grande, algumas empresas abrigadas no Parque
Tecnológico da Paraíba (ParqTcPB), vinculado à universidade
federal que leva o nome da cidade, tornaram-se referências
nacionais na área de eletrônica e informática, dado seu poder
de inovação. É o caso da Insiel, que desenvolveu a primeira
tornozeleira eletrônica para monitoramento de presos em regime
semi-aberto do país – um equipamento similar ao que controlou
o casal de líderes da Igreja Renascer, Sonia e Estevam
Hernandes, durante seu recente julgamento nos Estados Unidos.
"O projeto
levou em conta as exigências impostas pelo sistema judiciário
e pelos órgãos fiscalizadores nacionais", explica Juan
Pinheiro, diretor administrativo da empresa. Produzida com
fibra de carbono e dotada de sensores GPS, a tornozeleira está
sendo testada em presos do município paraibano de Guarabira e
já despertou o interesse de autoridades do Paraná e do Rio
Grande do Sul.
Os municípios
que abrigam parques tecnológicos, além das vantagens
tributárias diretas e da geração de emprego e renda
qualificados, também são favorecidos pelos benefícios que
essas instituições trazem para o portfólio econômico local.
Principalmente nas cidades menores, os parques, até por
inércia, como que empurram o conjunto das indústrias para a
alta tecnologia.
Foi o que
aconteceu com São Carlos, localizada no centro do estado de
São Paulo. Tradicional centro universitário de apenas 200 mil
habitantes e hoje com cerca de 500 indústrias – essa
quantidade duplica quando se incluem as dedicadas ao
agronegócio –, a cidade tem atualmente cerca de 150 empresas
de base tecnológica, um número decorrente da natural formação
de cadeias produtivas e da substituição periódica de empresas
"incubadas" por novos projetos empresariais.
A maioria das
indústrias são-carlenses que ficaram independentes se tornaram
pequenas potências tecnológicas, e hoje têm participação
expressiva no mercado brasileiro, como a MRI Tecnologia
Eletrônica. Criada em 1991 e incubada no ParqTec entre 1994 e
99 – hoje a empresa é apenas uma eventual parceira da
instituição –, a MRI é voltada para o desenvolvimento e a
fabricação de controles eletrônicos e equipamentos para
automação industrial e comercial.
"O mercado tem
uma enorme demanda por produtos com alto grau de tecnologia
agregada", diz Marcos Henrique dos Santos, diretor da empresa.
Um item desenvolvido pela MRI foi o terminal remoto de dados
(TRD). Instalado nas maiores unidades produtoras de açúcar e
álcool do país, ele é empregado no processo de análise da
qualidade da cana em usinas e destilarias. A empresa também
atua como parceira no desenvolvimento de equipamentos para a
área médica e de instrumentação, fornecendo ainda produtos
para o mercado de eletrificação rural (cercas eletrônicas) e
aparelhos de diagnóstico para o setor automotivo.
É esse cenário
econômico quase paradisíaco que as pequenas e médias cidades
brasileiras desejam alcançar, quando propõem a criação de
parques tecnológicos. Há algumas que apreciaram tanto a
experiência que, mesmo já contando com um parque, estão
montando outro, como Canoas, na Grande Porto Alegre.
Já dispondo do
Centro de Empreendedorismo e Parque Tecnológico de Canoas
(Cecan), com várias indústrias de alta tecnologia, a cidade
deve inaugurar, em 2008, o parque da Incubadora Tecnológica
Empresarial São Lucas (Iteslu), da Universidade Luterana do
Brasil (Ulbra), uma das maiores do país. O local oferecerá
infra-estrutura em uma área de 15 hectares para a instalação
de empresas de inovação tecnológica de médio e grande porte. A
Iteslu abriga hoje 23 empresas, e várias delas serão removidas
para o parque.
"A idéia é que
fiquem no parque indústrias que possam fazer interface com os
institutos, laboratórios e as áreas de engenharia da Ulbra,
como metal-mecânica, automotiva, de energia, meio ambiente,
telecomunicações, software e saúde, entre outras", informa
Rosângela Fraga Alves, diretora da Iteslu.
O mau
exemplo dos distritos
industriais
Para os
especialistas, a possível banalização dos parques tecnológicos
no Brasil tem duas razões de fundo: tanto a crônica
dificuldade que as cidades do interior sempre encontraram para
se industrializar, como o cultivo de uma espécie de "cultura
da imitação", que as faz correr atrás de modelos consagrados,
em vez de investir em formas autóctones e auto-sustentáveis de
desenvolvimento – financiando os pequenos empresários locais,
por exemplo, em parceria com órgãos especializados.
O Brasil não
pode, nem de longe, ser considerado um país em que a
industrialização, que começou a tomar forma no final da década
de 1950, é bem distribuída. Por razões históricas – das quais
a escassez de capital para a criação de um colar de cidades
médias fortemente industrializadas, como fizeram a Europa e os
Estados Unidos é, sem dúvida, a mais importante –, perto de um
terço da produção industrial advém ainda da Grande São Paulo,
onde se concentrou a maioria dos investimentos produtivos.
Outra boa parte é originada de regiões metropolitanas de
capitais do sul, sudeste e nordeste do país.
Contam-se nos
dedos as cidades do interior realmente industrializadas. A
maioria está no próprio estado de São Paulo, como Campinas,
São José dos Campos, Sorocaba e Ribeirão Preto. Caxias do Sul
(RS) e Joinville (SC), na região sul, municípios do interior
fluminense, algumas cidades de Minas Gerais localizadas no
vale do Aço e nas montanhas do sul mineiro, e Ilhéus (BA),
Campina Grande (PB) e Sobral (CE), na região nordeste, também
se enfileiram entre as exceções.
Isso não quer
dizer que o restante das cidades brasileiras tenha economia
exclusivamente agropastoril. Para crédito principalmente das
prefeituras, que jamais deixaram de despender esforços para
atrair indústrias para seu território, milhares de municípios
brasileiros contam nem que seja com duas ou três fábricas em
seus muitas vezes incipientes "distritos industriais".
Na verdade, o
que parece ser a moda dos "parques tecnológicos" foi, de certa
forma, precedido pela dos "distritos industriais" – sua versão
"hardware", pode-se dizer assim –, que, aliás, ainda não
acabou inteiramente, apesar dos evidentes sinais de
esgotamento.
Deseconomia
De acordo com
Paulo Tadeu Leite Arantes, da Universidade Federal de Viçosa,
esse tradicional modelo de "mini-industrialização"
disseminou-se, principalmente, entre os anos 1970 e 1985,
quando várias indústrias paulistanas começaram a migrar para
cidades próximas, para fugir do cenário de deseconomia que
pairava sobre elas. "A elevação dos preços dos terrenos, que
dificultava projetos de ampliação, e o custo de mão-de-obra e
de logística foram os principais motivadores dessa migração",
explica.
Para disputar a
preferência dessas indústrias e, claro, atrair novas,
prefeituras de vários pontos do país acenavam tanto com a
oferta de benefícios fiscais como de infra-estrutura
praticamente gratuita nas áreas escolhidas como distritos
industriais.
No entanto,
foram relativamente poucas as cidades médias e pequenas que
conseguiram se desenvolver a partir desse modelo. Um dos casos
de maior sucesso foi o de Guarulhos, na Grande São Paulo.
Colada à região nordeste da capital, a 20 quilômetros do
centro histórico da Sé, e servida por rodovias importantes
como a Presidente Dutra, a Ayrton Senna e a Fernão Dias – sem
mencionar que em seu perímetro está também instalado, desde o
início dos anos 1980, o Aeroporto de Cumbica –, Guarulhos é
hoje uma das cidades mais industrializadas do país.
Nos distritos
industriais de Cumbica, Itapegica e Bonsucesso, há 564
indústrias e 413 transportadoras, de nomes arquiconhecidos
como Petrobras, Bardella, Dupont, Randon, Pfizer, Yamaha e
Editora Saraiva, por exemplo. "A cidade soube aproveitar as
circunstâncias favoráveis. Melhor que isso, temos ainda muito
espaço disponível para oferecer às indústrias", diz Antônio
Carlos de Almeida, secretário de Desenvolvimento Econômico do
município.
A maioria das
cidades, contudo, não teve a mesma sorte, por estarem muito
distantes dos grandes centros, por não serem tão bem providas
de rodovias ou ainda por não terem suficiente mão-de-obra
qualificada. O excesso de competição – a chamada "guerra
fiscal" – também pesou. Hoje, quase não existe município
brasileiro de certo porte que não tenha seu distrito
industrial ou que não planeje implantá-lo.
Há milhares
de distritos no país com um número insignificante de empresas,
sem falar daqueles que continuam rigorosamente vazios,
principalmente no nordeste, em muitos casos por malversação
dos benefícios fiscais. Em 1995, um grupo de 457 indústrias
foi acusado de ter recebido US$ 532 milhões em subsídios da
Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e não
ter tirado os projetos do papel.
Outro problema é
que as indústrias, hoje, nestes tempos de globalização e
comunicação instantânea, não têm pátria. Elas podem até ser
atraídas para uma determinada cidade, mas, dependendo de sua
atividade-fim, mudam-se para outra na primeira oportunidade,
se isso lhes for conveniente.
No ano passado,
quando lhe perguntaram qual seria hoje o melhor lugar do mundo
para montar uma fábrica, um alto executivo da Philips mundial
simplesmente respondeu: "Um navio". Assim, de um dia para o
outro, todo o investimento de um município pode escapar pelo
ralo. É uma experiência dramática por que muitas cidades
brasileiras já passaram, como São José dos Pinhais (PR),
quando perdeu a montadora da Chrysler, anos atrás.
São José tinha
outras empresas para atenuar o golpe, mas, quando a cidade
depende praticamente de uma única indústria e esta resolve
partir, a experiência pode ser aterradora.
Antes de se
tornar o vigoroso pólo da área de eletrônica e tecnologia de
informação que é hoje – quase um megaparque tecnológico –
Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas Gerais, por exemplo,
passou por uma crise dessas. Com grande sacrifício fiscal, a
cidade conseguiu atrair, nos anos 1990, uma grande produtora
de componentes eletrônicos, a Waytec, que rapidamente empregou
4 mil pessoas, mais de 10% da população do município.
No entanto, a
empresa permaneceu em Santa Rita apenas cinco anos. A
prefeitura de Ilhéus, cidade baiana que também começava a se
dedicar à produção de eletrônicos, fez à Waytec uma proposta
que Santa Rita não conseguiu cobrir. Da noite para o dia, a
cidade tinha 4 mil desempregados. Algo parecido aconteceu com
a vizinha Itajubá, quando uma fabricante de autopeças
portuguesa também resolveu se mudar.
O caso de Juiz de
Fora, ainda em Minas Gerais, é igualmente emblemático. O
governo mineiro e a prefeitura local investiram milhões de
dólares nos anos 1990 para atrair a Mercedes-Benz, que começou
a produzir ali o Classe A. Esse carro, como se sabe, não
vingou no Brasil. Uma fábrica que deveria gerar 12 mil
empregos hoje é responsável por cerca de mil. A unidade virou
uma plataforma de exportação, e é certo que a Mercedes só não
abandona Juiz de Fora por razões contratuais.

